Dialogando com a Psicanálise: do luto à análise pessoal
Psicanalista. Membro fundador do TRIEP, atuando na coordenação dos cursos de formação a profissionais da área de saúde mental e em consultório particular. Especialista em Psicologia Clínica e analista institucional


Palestra apresentada na I Jornada de Estudos Psicanalíticos do Centro Universitário Padre Anchieta (Campus Prof. Pedro C. Fornari)

Em primeiro lugar, agradeço o convite da Comissão Organizadora pela oportunidade de estar aqui com vocês e de podermos conversar.

Para essa conversa com vocês resolvi começar situando-os a respeito da minha formação profissional.

É como uma psicanalista que estarei conversando sobre a questão proposta: do luto à análise pessoal do analista. Falo necessariamente a partir de um lugar formado pelas minhas escolhas transferenciais e teóricas, a partir de uma determinada formação e filiação institucional. Minha trajetória é profundamente marcada pelo eixo freudiano, a partir do qual incorporei a leitura francesa da psicanálise.

Bem, com a criação da IPA – International Psychoanalytical Association – em 1910, cujas ramificações chegaram a quase todos os países da Europa e os da América do Norte e América Latina, Freud alimentou a esperança de que o objetivo de ensinar a prática da análise e formar os candidatos fosse realizado em condições de garantir a competência dos analistas formados. Uma condição daí colocada foi aquela da chamada “análise didática”.

Depois, desde a fundação do Instituto Psicanalítico de Berlim em 1920, inaugura-se concomitantemente um modelo oficial de formação analítica: análise pessoal do analista, atendimentos supervisionados e cursos teóricos.

Ao discutir a questão da análise leiga, ou seja, a análise pelos não-médicos, diz Freud:
O que exijo é que não possa exercer a psicanálise alguém que não tenha conquistado por meio de uma determinada preparação, o direito a uma tal atividade.”

Sendo o Inconsciente, a transferência e o Édipo os pilares da descoberta freudiana a partir dos quais a análise é possível e a teoria se desenvolve, é de se supor que estas questões digam respeito à formação analítica.

No TRIEP pensamos que a formação deve se encaminhar de modo não a se instalar num confortável transatlântico que nos leve ao suposto porto seguro das teorias, mas deve se encaminhar para aprendermos a navegar nas tempestuosas águas do inconsciente onde a transferência muda o vento sem prévio aviso.

Acreditamos, também, no tradicional tripé sobre o qual se ancora a formação do psicanalista: estudos teóricos, supervisões da prática e a análise pessoal do analista.

Essas três vertentes devem fazer parte do projeto de formação de todos aqueles que desejam ocupar um lugar na clínica com seriedade e ética.

Em seu texto de 1912 Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise, diz Freud:
“Há alguns anos, dei como resposta à pergunta de como alguém se pode tornar analista:” Pela análise dos próprios sonhos.”Esta preparação, fora de dúvida, é suficiente para muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus próprios sonhos sem auxílio externo...Todo aquele que tome o trabalho a sério deve escolher este caminho, que oferece mais de uma vantagem; o sacrifício que implica revelar-se a outra pessoa(...)

Exercer a psicanálise é um direito que se conquista e a análise pessoal é com certeza o lugar básico da formação do analista. Para o trabalho na clínica, esse território permeado por angústias, dúvidas, perguntas das mais variadas ordens, é imprescindível que cada candidato ao lugar de psicanalista se prepare cuidando de buscar aliviar as dores do seu próprio viver.

Nesse mesmo texto que citei a pouco Freud coloca:
“...quem não se tiver dignado a tomar a precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correra também perigo mais sério, que pode tornar-se perigo também para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar para fora algumas das peculiaridades de sua própria personalidade, que indistintamente percebeu, no campo da ciência, como teoria de validade universal; levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os inexperientes.”

Na época das nossas graduações acreditamos que os saberes dos livros bastariam para ajudar um outro. Claro que temos mesmo que investir em um estudo rigoroso dos textos, um estudo crítico até porque as complexidades da clínica e da vida psíquica são muito grandes para pensar que a conceitualização de um único corpo teórico ou autor possa esgotá-las.

Mas, há uma ilusão em nosso pensamento que pelo suposto saber/resposta dos livros e depois com a conclusão da graduação podemos nos colocar como clínicos e pronto.

Felizmente não é assim. E por que?

A constituição do sujeito psíquico é inevitável e necessariamente na dor (defesa e sintoma). O nosso modo de pensar e entender a vida e o viver tem na sua composição uma dor psíquica que precisa encontrar um lugar de expressão e compreensão. Esse lugar é o lugar de paciente, de analisando.

Quem diz que está “muito bem”, que é “resolvido”, que teve uma “infância normal” precisa se perguntar e muito sobre suas condições para ser psicanalista. Dizer que “precisa fazer análise para se conhecer melhor para ajudar os outros” também não é lá uma boa maneira de pensar a questão. Tem que se perguntar onde o sapato aperta, onde lhe dói.

Quero dizer, admitir que no seu viver há dores psíquicas é o que deve motivar a todos. Entendendo desse modo o candidato a psicanalista experimenta na própria carne um ponto importante que motiva todos os indivíduos a pedir ajuda – o sofrimento psíquico - essa dor que acomete o sujeito e que desconhecendo sua razão a percebe no interior de si mesmo.

O candidato a psicanalista deve fazer análise por sua causa, por suas dores, por razões pessoais e também para se perguntar porque deseja ser analista. Por que desejamos saber das mazelas da vida dos outros, qual será a nossa motivação inconsciente para isso?

E é aí que “a porca torce o rabo”.

Não é fácil pensar que temos desejos inconfessáveis, fazemos coisas sem motivo aparente, que não vivemos sob o império da inteligência e da razão, mas de algo que nós ultrapassa, nosso inconsciente. Ninguém escapa a isso – nem Sócrates, nem Hegel, nem Freud. E, além disso, contrariando o imaginário cultural estudar psicologia não nos faz entendidos de tudo ou todos, não nos faz menos nervosos, mais coerentes ou equilibrados. Ninguém escapa a isso – nem Piaget, nem Skinner.

O processo analítico, que não é necessariamente desagradável, requer determinação e uma certa coragem, pois, será uma aventura na exploração das entranhas dos pensamentos malcheirosos e arriscados. Mas sem uma vontade de acalmar uma dor e conseguir viver melhor como enfrentar esse caminho da análise?

Eu diria que reconhecendo o seu sofrimento psíquico, o desejo de resolver um conflito e precisar se curar o futuro psicanalista que busca e realiza uma análise dá um bom passo para se autorizar a ser analista. Deixa de engatinhar, se coloca de pé e dá os primeiros passos para a construção do percurso da sua formação.

O trabalho na clínica traz momentos árduos, acreditem que não serão poucos esses momentos, e será importante saber que a pratica que oferecemos aos nossos pacientes já curou alguém: nós mesmos.

Consideramos, também, que há um processo interminável de formação do analista, mas não só porque vai continuar lendo ou estudando o resto da vida. Há um processo de formação no próprio trabalho clínico, o tempo todo, e naquilo que a partir do trabalho clínico se recoloca para o analista como questão a ser nomeada.

A formação de um psicanalista supõe muita paciência para a construção artesanal do seu lugar profissional, disponibilidade de pensar no outro e em si mesmo e reconhecer que essa escolha profissional envolve suportar entrar em contato com pessoas diferentes de nós, e em determinados casos muito diferentes; ter pelas diferentes experiências humanas uma enorme curiosidade e apreço e não uma recusa, desprezo ou julgamento moral. Constituir-se na posição ética de que esse trabalho não é o de decidir o bem ou mal, o certo ou errado, quem tem razão, não se é um juiz e muito menos o dono da verdade sobre a vida.

O efeito da análise pessoal do analista, para além de acalmar a dor e se viver melhor, trará sentido a outra importante vertente – a relação do psicanalista com a teoria, com o saber.
 
Freud em sua Conferência XXXIV – A questão de uma weltanschauung (visão de mundo) colocando dialeticamente a religião, o marxismo e a psicanálise brilhantemente situa-nos sobre como trabalha o cientista:
...“trabalha como um escultor no seu modelo de argila, o qual, incansável, modifica o esboço primitivo, remove, acrescenta, até chegar àquilo que sente ser um satisfatório grau de semelhança com o objeto que vê ou imagina”.

A Psicanálise é uma ciência, o psicanalista um cientista e isso quer dizer, seu trabalho deve se apoiar num espírito de estar sempre disposto a ser verificado. O cientista é aquele que se propõe sempre a se perguntar, não trabalha com certezas, mas com hipóteses, está incansavelmente disposto a rever seus construtos teóricos e não se atormenta ou se abate com críticas.

A teoria é um momento da elucidação, sempre lacunar e fragmentária. Experimentaremos, assim, dia após dia: dúvidas; formulações; reformulações; leituras e releituras no itinerário dos nossos questionamentos e descobertas.

A relação do psicanalista com a teoria, com o saber, deve ser o da busca de um conhecimento que leve a desalienação. Deve manter-se com uma disposição constante de interrogar e colocar em questão os modelos metodológicos. Essa disposição implicará em uma desidealização e todo um trabalho de luto da busca infantil de um mestre, de um construto teórico de perfeição e certezas absolutas.

Em seu texto “Luto e Melancolia” de 1917 Freud coloca que:
O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém...”

Há um trabalho de luto a realizarmos na nossa análise pessoal para nós tornarmos um psicanalista, a perda de “um ente querido”, e para alguns muito querido, o ideal de um estado pleno aonde se teria todas as respostas, todas as soluções ou seja, o ideal da onipotência infantil. Esse ideal infantil busca encontrar um mestre que tudo sabe e responde e por conseguinte também ser sua imagem e semelhança.

Perder o objeto é transformar-se. Daí, o luto implica em uma perda e também em um processo da saúde mental, pois, coloca-nos em transformação e na desalienação.

Esse trabalho de luto, a perda da onipotência infantil, se faz necessário porque a experiência da escuta, coloca-nos em um lugar difícil. Um lugar no qual se deve suportar as transferências (laços terapêuticos) um contato permanente com a incerteza, com a irrupção do desconhecido. E também, o trabalho de luto nos ajuda a aceitar não saber nada a priori sobre aquele que pede ajuda, conhecendo dele apenas aquilo que surgirá encontro após encontro. E que oferecemos a ele um interesse legítimo em acompanha-lo na sua busca de compreensão das perguntas que brotam do seu próprio desejo.

Vive-se na clínica com o equilíbrio instável, com sua complexidade e a da vida psíquica que são grandes demais, desse modo, nossas escolhas teóricas não serão “simples” leituras, muito menos um manual a ser seguido, mas uma busca marcada pela inquietude, angústia e questionamento ativo do desejo de saber.

Esse questionamento ativo do desejo de saber significa estudar, supervisionar sua prática, se por a pensar e se questionar sempre.

Pensar que a prática clínica seria uma mera aplicação de uma teoria tida como sagrada e que se estaria ali – no lugar do espaço clínico – para conduzir um outro oferecendo respostas as suas perguntas, seja quais forem, é no mínimo presunçoso e no máximo perigoso e abusivo.

Oferecemos um espaço de escuta e de diálogo, investigando e interrogando as motivações conscientes ou inconscientes para um sujeito que tenta buscar alívio para suas dores e se transformar segundo os seus próprios desejos.

Como aprender a analisar, então, sem passar pela experiência da própria análise?

Na análise pessoal, o analista retoma o contato com a criança que nele existe, melhor dizendo, com as etapas da sua infância que remetem à “crise” de loucura.
Redescobre uma linguagem esquecida, as palavras perdidas de um dialeto materno: são essas palavras que lhe vão servir para escutar seu paciente.

A análise das dificuldades psicológicas do analista ajuda a abrir o campo para uma escuta genuína do paciente. Analisar-se é matar a criança ideal para dar lugar à criança real, é renunciar à onipotência infantil e, por que não, à ilusão do analista perfeito. É elaborar um luto. E, é nesta possibilidade de retorno que vamos rever os processos de idealização, a ilusão.

A ilusão é algo que surge de um desejo: o de evitar o contato com a vulnerabilidade humana, criando uma figura de pai protetor, sem falhas, nem faltas, recriado na onipotência e na onipresença de uma figura divina. A ilusão narcísica de plenitude.” ·

Na verdade, só fazemos análise para deixarmos de nos repetir. Vamos para o divã e rememoramos para nos livrarmos da repetição inconsciente e reinventarmos nossa existência.

E desta maneira, nos tornamos mais criativos, livres, produtivos, porque poderemos reconhecer, sem nos sentirmos ameaçados, que existirá sempre desejos brotando, que haverá sempre o inesperado, mas que podemos desfrutar do direito de pensar e repensar.

Para encerrar gostaria de indicar um poema a vocês. O Poema em linha reta de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos).

Indico a leitura e reflexão que esse poema coloca a todos, e principalmente aqueles que resistem em pensar que a análise pessoal do psicanalista não é uma mera retórica, um discurso vazio ou uma questão mercadológica.

Obrigado a todos e espero, de coração, que a Jornada de Estudos Psicodinâmicos tenha vida longa.

 

Jundiaí, 03 de Outubro de 2008.
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____________(1926) A Questão da Análise Leiga, Vol. XX, Pág. 226

__________(1912) Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise, Vol. XII, Pág. 155

__________Ibíd. , Pág. 156

.____________(1932-1936) Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferência XXXV A Questão de uma Weltanschauung, Vol. XXII, Pág. 211

___________(1917[1915]) Luto e Melancolia,Vol. XIV, Pág. 275

Alonso, Silvia Leonor – Efeitos na clínica dos ideais instituídos, Percurso Revista de Psicanálise – Ano II - N° 3 - 2° Semestre de 1989.

 
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