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2020: o primeiro ano do resto de nossas vidas

Este não foi mesmo um ano comum em nosso calendário. Não há como discordar! Talvez por isso tenha me ocorrido como título o nome de um filme de 1985: “O primeiro ano do resto de nossas vidas.” Sim, o primeiro ano, porque a sensação é a de que 2020 tem sido um processo! Um longo processo que envolve uma experiência de catástrofe e as possíveis saídas de enfrentamento que poderemos, coletivamente e individualmente, encontrar para esta vivência tão intensa e significativa na qual mergulhamos este ano.



Apoiados numa leitura ferencziana, os psicanalistas Julio Verztman e Daniela Romão-Dias (2020), definem a catástrofe como uma experiência abrupta de ruptura, uma mudança radical que impõe suas marcas a todos os que viveram determinada experiência. Esta experiência comum implica no surgimento de vulnerabilidade, de vivências de perigo, ameaça e tensão entre vida e morte, acarretando a possibilidade de generalização do traumático e de achatamento da experiência. A experiência de “catástrofe traz o trauma para o centro de nossa existência”, e nos faz reviver nossas mais precoces experiências subjetivas.


As experiências subjetivas de cada um de nós com os acontecimentos e os manejos que se fizeram repentinamente necessários, nos permitem uma certeza: fomos (e temos sido) muito demandados. Uma série de modificações em nossas rotinas de trabalho, mudanças no convívio social e familiar, alterações nos hábitos de consumo, produção e nas formas de divertimento, exigiram que nos deparássemos com algumas (re)descobertas e muitas limitações.


O impeditivo de uma vida “normal” lá fora, nos trancou pra dentro. E o dentro de cada um permite diversas visitações, alguns sustos e impasses, sustentações e quedas, diferentes tipos de surpresas, escutas novas sobre si mesmo, uma percepção mais aguçada de si e do outro, e também daquilo que ecoa no mais íntimo de cada um.


O excesso de realidade se apresentou de tal modo que nos vimos invadidos por sentimentos de insegurança, medo, horror, ameaça, incerteza. Nossa fragilidade mais humana, que muitas vezes insistimos em não querer saber dela encobrindo-a com diferentes roupagens, se desnudou. Para nos proteger e manter a vida, seria preciso uma reinvenção.


A posição incômoda de desamparo, a mais arcaica de nossas experiências, nos fez agir rápido para nos liberar da angústia destas vivências. Sentir o cheiro da finitude nos arredores de nosso cercadinho, nos apavorou e nos colocou pressa. Nem tivemos tempo ainda de pensar estas experiências e tentar um caminho de elaboração para elas, e já nos apareciam as insistentes perguntas: o que a pandemia te ensinou? O que você aprendeu com 2020? O que o isolamento social tem te mostrado? (...) Como assim: você ainda não tem respostas??


O traumático saiu de nosso campo teórico e, destancando-se de um “tempo longínquo”, nos fez sentir na pele aquilo que o define. O trauma é uma resposta subjetiva a um evento ao qual, inicialmente, estivemos impossibilitados de responder. Ele remete “a uma falta ou um excesso, um aquém ou um além, o impossível e o inconcebível que se abate sobre cada um de nós e que esgarça nossa capacidade de usarmos nosso funcionamento psíquico habitual a fim de fazer frente à nova exigência. Exigência essa que nos transforma ou nos aniquila. O trauma, portanto, é um ponto nodal de nossa subjetivação.” (Verztman e Romão-Dias, 2020)


A pressa em significar a experiência compartilhada de uma vida em isolamento devido a uma pandemia, promoveu as mais diversas injunções por vezes disfarçada de grande positividade e injeção de ânimo: leia todos os livros que você sempre quis e nunca teve tempo; faça aquela atividade física que você adorava e já não tinha mais como praticar; assista a todos os filmes que sempre quis assistir e que te aguardam há muito tempo; escute todas as playlists das músicas que você salvou; aprenda novas atividades: cozinhe, faça yoga, aprenda uma língua, medite, assista lives, faça lives, aproveite seu tempo!!


“Aproveitar o tempo” virou sinônimo de saber o que fazer com toda essa lista e, supostamente, colocar em dia, uma vida inteira que havia sido suspensa por “causas desconhecidas”. Tornou-se sinômino, agora, de saber atravessar uma pandemia. Nos colocamos mais uma tarefa/cobrança, mais um ideal para os novos tempos. Um ideal que não poderia ser menos que da ordem do “tudo”, do “todo”.



Talvez ainda estejamos nos dando conta de que tal ideal-check-list é da ordem do “não vai dar!” E que bom que a gente possa se dar conta de que deste ideal de tudo/todo, sempre algo escapa, algo fracassa, algo cai e impele a continuar, um resto nos convoca a ir um pouco mais, talvez. Já pensou se tivéssemos completado o check-list e zerado a vida?


Dezembro é o nosso nono mês de pandemia. O que está prestes a nascer com o novo ano não estará pronto em 01/01/2021. Estamos tentando atravessar este processo de experiência de catástrofe, nomear nossa experiência singular frente aos últimos acontecimentos, tentando transformar uma vivência de achatamento subjetivo em algo de que possamos nos apropriar para, então, nos reinventar. O que está por vir é, pra nossa sorte, ainda, uma promessa de futuro. Que começa com cada possibilidade do que pode ser pensado, compreendido, revisto, modificado, mantido. E tudo isso requer de nós um laborioso trabalho psíquico, que precisa de tempo e de uma certa condescendência consigo mesmo, para que possa ser inscrito e tornado singular.


Que o novo ano seja deste tipo de trabalho, da possibilidade de pequenas mudanças, de menos pressa em ter respostas e mais artesania em construí-las. Que possamos nos constituir de nossos paradoxos e acrescentar a eles mais um: “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” (José Saramago). Feliz construção de um 2021 a todos!


Leila Veratti

Psicanalista, membro do TRIEP.

leilacsantos@hotmail.com


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