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A agressividade em crianças pequenas

Por que a agressividade das crianças pequenas assusta tanto os pais? Muito dessa agressividade é expressa na disputa entre crianças, quando rivalizam a posse de algum objeto, por exemplo. Alguns pais podem ficar com receio que tal embate possa causar algum dano emocional em seu filho. Porém, a agressividade faz parte do desenvolvimento humano.



É de suma importância que haja interação entre crianças da mesma idade (ou de idade próxima) em que, necessariamente, acontecerão embates entre elas, mesmo que causem algum desconforto aos pais. Muitos adultos acreditam (ou querem acreditar) que entre crianças deve apenas reinar a paz! Nada mais improvável, já que é nada proveitoso haver um ambiente no qual as crianças não possam expressar suas desavenças com outros da mesma idade, mesmo que em muitos momentos eles se manifestem de forma mais acalorada. O importante é deixar que as crianças aprendam com tais situações, que possam dizer “não” a uma outra criança, que não precisam ser sempre cordiais e simpáticas.


Obviamente que é preciso haver uma mediação destes conflitos pelos adultos em alguns momentos pontuais, deixando para que as crianças possam também se acertar entre si para que possam assimilar os efeitos destes encontros. Mas tais mediações precisam ser feitas, primordialmente, por meio de palavras, pois elas vão ordenando o que se passa entre as crianças, vão estabelecendo os limites por onde tais desavenças se estabelecerão.


As crianças pequenas precisam construir um conhecimento sobre si mesmas para poderem se diferenciar dos outros, já que esta distinção não está presente desde o início da vida. Podemos constatar este fenômeno quando uma criança bate na outra e a mesma criança que bateu é quem diz “ai”, demonstrando que está se construindo esta delimitação entre o eu e o outro, ou seja, entre aquilo que é próprio da criança e o que é de uma outra pessoa.


A noção de um si mesmo, de uma referência interna a partir da qual podemos dizer “eu quero” “eu sou” ou “é meu”, precisa passar por um processo que faz parte do desenvolvimento psíquico. Ocorre concomitantemente ao estabelecimento do que é próprio ao outro, que ocorre quando, por exemplo, uma criança consegue nomear os objetos que são dos colegas e não são dela ou quando consegue nomear um amigo. Estes momentos são permeados por alguns embates, por algumas disputas de objetos, pelo estabelecimento de brincadeiras onde são postas coisas suas e dos outros; em última instância, por todo uma série de situações nas quais está se delimitando espaços que são próprios, pelos quais a criança irá se apropriar. Com o tempo, ela não precisará mais se sentir tão ameaçada pelos colegas, mas isso levará um tempo e dependerá de cada situação em particular.


De qualquer forma, é preciso que a criança queira se ligar a uma outra criança; do contrário, quando está quieta demais, “muito bem comportada”, evitando qualquer embate, é preciso avaliar o quanto está, na verdade, com dificuldade em estabelecer vínculo com outras crianças, cuja relevância para o desenvolvimento emocional é de suma importância também para o estabelecimento de uma imagem corporal que possa se unificar e, desta forma, referenciar uma identidade própria: “esse sou eu, com esse corpo”. Afinal, o primeiro espaço a ser delimitado diz respeito ao próprio corpo.


Portanto, para que a criança possa ter um sentimento no qual ela possa se referenciar e se diferenciar dos outros, ela vai precisar se relacionar com uma outra criança da mesma idade, ou de uma idade próxima da dela, mesmo que durante este processo ocorram alguns embates, o que é natural e estruturante para o psiquismo. O que ocorre são experimentações repetidas nas quais o encontro com o corpo de uma outra criança vai dando contornos ao próprio corpo da criança, em que certo grau de agressividade, que estará presente nestes encontros, vai possibilitando entender qual é o limite entre estes dois corpos. Por isso que é importante que ambas as crianças possam dizer “não!” quando o coleguinha passar dos limites; possam dizer: “isto é meu, não é seu”, e assim por diante. Caso as crianças ainda não tenham a capacidade de verbalização, é preciso que os adultos vão nomeando estes espaços entre as crianças e seus limites.



Por isso não é bom forçar amizade entre as crianças quando o que se está sendo trabalhado é justamente os espaços que precisam ser delimitados. A amizade virá, também em decorrência desse processo, quando a criança não se sentirá mais ameaçada com a interação de outra criança e poderá, assim, estabelecer com ela brincadeiras compartilhadas.


Fabiana Sampaio Pellicciari

psicanalista membro do TRIEP

fabiana.pellicciari@gmail.com

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