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A flor e a nausea

Empresto o título da poesia de Drummond para transitar um pouco por entre tristezas, perdas, mortes, horizontes nebulosos e o mergulho na falta de perspectiva que parece um caldeirão cada vez mais repleto e que não tem fundo.



Na tentativa de lidar com isso e pensar os conteúdos deste caldeirão, como quem busca construir ou encontrar algum sentido e compreensão que possam tocar um suposto fundo dele, algumas vezes nos sentimos capturados pela arte, pela beleza, pela poesia, por um “princípio de esperança”, por um enlace com alguma coisa que nos possibilite revitalizar um momento que tem sido tão acinzentado. Estas pequenas brechas nos tiram, ainda que brevemente, desse torvelinho de onde só parece se agitar um caos interminável.


Depois de um ano de pandemia, tem sido um tanto difícil experimentarmos aberturas assim. Estamos quase todos no limite da exaustão. E, quase que literalmente, tem sido difícil respirar! Em muitos momentos, a fronteira que “separava” o eu do mundo externo e que parecia nos proteger de tantas sensações invasivas, frequentes e angustiantes, parece se romper. Ficamos confundidos nesse dentro-fora-dentro. Dependendo da intensidade com a qual isso nos afeta, nossa sensação é de paralisia, nos sentimos imobilizados perante tanto excesso. E a partir disso podem se instalar movimentos de ruptura, de desligamento, de desespero e de desorganização psíquica que impedem que possamos fazer laços com aquilo que é da ordem de uma possível Erotização da vida. Ficamos lançados a um estado de entorpecimento, de impassibilidade e que parece nos prender à linearidade dos acontecimentos.


Há uma experiência de achatamento do tempo e de uma forma de condensação das experiências que, boa parte das vezes, se resume aos espaços de nossa casa. Há uma falta de intervalo onde buscar ar e somos remetidos a uma sensação de descontinuidade do ser, como diria Winnicott. Nessa esteira, não tem sido uma ou duas vezes que nos deparamos com reflexões do tipo “pra que vou me programar pra uma viagem se nem sei quando isso acaba?”; “não faz sentido iniciar um curso se nem sei se vou sobreviver a isso tudo!”, “estarei bem para terminar o que pretendo começar e poder desfrutar disso?”; “como posso acreditar que as coisas podem dar certo com tanta tragédia acontecendo ao meu redor?”. É verdade, não temos como saber. O abalo e a perda de antigos referenciais escancararam uma verdade que tentávamos revestir com algumas certezas e nos faz agora lembrar que, todo dia, toda decisão é uma aposta. Talvez não tenha como ser diferente disso...


Em meio a todas estas vivências que remetem a uma falta de perspectiva, é como se nosso esforço para nos ligarmos à vida fosse ainda mais trabalhoso, embora pareça cada vez mais necessário. E é nesse sentido, de um trabalho necessário e que requer muito esforço, que penso o quanto a esperança pode ser o elemento que nos possibilita virar o jogo (ou fazer outro jogo, ao menos). Não me refiro à esperança em seu sentido religioso, filosófico ou mesmo em seu aspecto puramente otimista e ligado ao campo da consciência. Empresto aqui a compreensão do psicanalista Luís Cláudio Figueiredo, ao pensar o sentido da esperança no atendimento de pacientes “desesperançados”, em seu texto “O paciente sem esperança e a recusa da utopia”. Para ele, a esperança é um princípio organizador da vida psíquica e de estruturação da subjetividade. Ele a define como “uma condição imprescindível ao bom funcionamento do aparelho psíquico e que opera em planos muito profundos e inconscientes do psiquismo (...) Ela sustenta a ligação intrínseca entre investimento de si e investimento do objeto, sendo, ela mesma, a condição para o investimento tanto da separação entre eles, quanto do encontro do self com seus objetos primários.” Ele afirma ainda, citando a psicanalista grega Anna Potamianou, que é apenas a partir de alguma esperança nascente que o quadro de desligamentos pulsionais, de desinvestimentos libidinais, de rupturas com os objetos/pessoas do mundo externo, pode ser revertido. “A esperança cria uma defesa contra a queda no nada (nada de objeto, nada de relação e nada de self), funcionando como a base para a reestruturação do psiquismo.”


Se temos isso em mente, como podemos trazer a esperança para a cena (clínica e/ou social) e “combater” a desesperança, o desespero, a falta de perspectiva, o horror no qual estamos enredados sem cair nas reproduções de discursos otimistas, evasivos, falsamente esperançosos que demandam dos sujeitos bem-estar e produtividade, colocando-se como mais uma tarefa de imposição superegoica?


Nesta perspectiva, Luís Cláudio nos lembra um episódio contado por Winnicott, ao reproduzir a fala de seu paciente “desesperançado” no decorrer de uma sessão: “A única vez em que senti esperança foi quando você me disse que não podia ver esperança alguma, e você continuou a análise.”


Foi a possibilidade de tocar a angústia, com todo seu potencial de desesperança e de aparente poço-sem-fundo, validando de alguma forma a percepção e o sofrimento do sujeito, o que permitiu que um trabalho (psíquico) pudesse ser continuado. E é de um campo ampliado desta possibilidade de trabalho que poderemos puxar fios de esperança para tra(n)çarmos novos nortes para uma vida coletiva pós-pandemia. Em tempos nos quais todo choro, luto e sofrimento são considerados “mimimi” e perda de tempo que pode gerar abalos na Economia, validar uma percepção, um sofrimento e seus efeitos subjetivos pode ser o maior ganho que podemos ter.



Enquanto a desesperança se coloca como alicerce para a indiferença, o egoísmo, o imediatismo, a manifestação do caráter conservador em seus diferentes aspectos, o embotamento dos afetos, a instalação da tirania e do vazio e se ancora na experiência de um “não mais”, de uma marca de desistência e impossibilidades, a esperança se coloca como a base para a possibilidade, para o vir-a-ser, para a capacidade de desejar e de sonhar, de construir novos começos e de se infiltrar em pequenas fendas com a possibilidade de criar, organizar, desenvolver, transformar, se ancorando numa experiência de “ainda não, mas...” com potencial de aposta e de elaboração.


Trata-se de uma possibilidade que é da ordem do movimento, de uma dinâmica psíquica, de uma intrincação de forças pulsionais, de investimentos psíquicos e de busca por modos de ligação que nos permitem ir um pouco mais e poder esperançar, a partir do possível a cada um e a cada momento. Não é de uma solução definitiva que se trata, mas de um trabalho por começar, de um trânsito possível entre a náusea e a flor. “Entre as desesperanças da hora e à falta de melhores notícias, venho informar-lhes que nasceu uma orquídea”. (C.D.de Andrade)


Leila Veratti

Psicanalista, membro do Triep

leilacsantos@hotmail.com

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