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Adolescência: um instante de olhar

Atualizado: 4 de jun. de 2023

quando eu tiver setenta anos


quando eu tiver setenta anos então vai acabar esta minha adolescência vou largar da vida louca e terminar minha livre docência vou fazer o que meu pai quer começar a vida com passo perfeito vou fazer o que minha mãe deseja aproveitar as oportunidades de virar um pilar da sociedade e terminar meu curso de direito então ver tudo em sã consciência quando acabar esta adolescência

(Paulo Leminski)


O poema acima aponta para algumas ideias bastante difundidas entre nós, dentre elas a de que a adolescência em sua duração é bastante variável e que a “consciência” no poema se refere a um entendimento do mundo, de objetivos de vida e relações interpessoais que seria recuperada passado esse período.



A entrada na adolescência, sociologicamente reconhecida como momento de transição entre infância e a vida adulta, tem grandes variações nos rituais em cada cultura. Porém sua entrada é certa e coincide com mudanças biológicas intensas: conhecida como puberdade.


Com as grandes mudanças no corpo a aparência é investida com grande interesse e muitos estranhamentos por parte dos púberes, dos pais e de todo o entorno de seu convívio. A curiosidade que a sexualidade imprime é vivida como tema central e de maneiras muito distintas, mas uma coisa é incontornável: a partir desse momento serão reavivados os impulsos da sexualidade infantil e as marcas por ela deixadas.


Freud, já no Projeto para uma Psicologia Científica (1895), texto inicial de suas pesquisas sobre a mente, nos apresenta a ideia de que as experiências vividas em um período da vida (a sexualidade na infância) sejam recordadas em outros com as “novidades” do momento (mudanças no corpo do púbere). Por exemplo, aquilo que foi vivido como jogo animado e excitante do corpo e com autorizações e proibições específicas da infância, agora é revisitado retroativamente e experimentado com novo entendimento.


Podemos dizer que a constituição do Eu para o bebê tem um importante momento inicial que é a experiência e descoberta do corpo quando o bebê começa a dominar seus movimentos e se reconhecer neles. Esse corpo fonte de intensas sensações irá prestar contas à civilização podendo experimentar o que é possível e permitido a essa idade. Na adolescência se revive essa experiência de descoberta corporal, agora com novas “regras” que deslocam do já conhecido universo da infância para a convocação para novas aventuras.


Na dificuldade de entender e expressar tanta novidade, em geral a palavra é substituída pelo ato. Ato esse que pode ser o gesto de nada falar, por exemplo, tornando esse momento crítico, de crise da existência, como preocupante por parte dos pais e/ou aqueles que cuidam desses jovens.


Nessa convocação para a vida adulta, a insegurança frente ao novo é assombrada por altas expectativas e a fantasia de soluções ideais! A formação do Eu, mencionada acima, também é marcada pela ilusão do ideal. Um bebê investido na posição daquilo que Freud chamou de “sua majestade o bebê” vai se descobrindo, conforme se desenvolve, aquém da posição ideal que o olhar dos pais o colocou.


A adolescência que tem como característica apontar em direção à vida adulta é reconhecida pelo jovem e este se sente amedrontado pela ideia de que “agora é pra valer”. As idealizações tomam a frente de todo “projeto” que passa a ser intimidado pelas altíssimas expectativas de uma satisfação da ordem do impossível, que acredita poder reeditar a ilusão da experiência do narcisismo vividos na formação do Eu na esperança de continuar seu “reinado”.



Uma saída desse período se encontra no tempo, que pode se estender muito e não coincide com uma idade específica. Sendo assim: o final da adolescência se justifica mais por uma mudança da lógica de como se posicionar frente ao mundo e todas as mudanças que ocorreram desde a infância do que apenas por uma passagem cronológico do tempo. Por essa ótica podemos implicar que a passagem dramática pela adolescência tenha transitado em direção a um período em que a responsabilização pelos desejos e projetos possam tentar ser vividos não mais com um “plano" ideal para que se possa então, investir o mundo em suas possibilidades de satisfações possíveis.


A ideia no título “Um instante de olhar” aponta para o que possa ser um facilitador dessa transição em que o cuidado atravessado pelas referências e concepções do “mundo adulto” não aniquile a inventividade criativa e singular de como habitá-lo com nossos sonhos.



Gustavo Florêncio Fernandes

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP


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