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Divã: o de Procusto e o da Psicanálise


A atemporalidade da narrativa dos mitos e lendas nos ajuda, muitas vezes, a compreender, pensar e ilustrar nossa própria história. E gosto de me referenciar neles para pensar algumas questões...


Na região da antiga Grécia, em Ática, na estrada de Elêusis, vivia um criminoso bastante conhecido pelos métodos que infligia às vítimas que atacava. Com o intuito de assaltar aqueles que transitavam pelas estradas em que exercia sua “arte ilícita”, Procusto (como ficou conhecido) oferecia aos viajantes sua “hospitalidade”.


A eles, oferecia para o descanso, um divã – uma cama de ferro com a justa medida de seu próprio corpo. Quando o viajante adormecia, Procusto dava início ao suplício: se o viajante fosse maior, partes de seu corpo lhe eram cortadas, os pés ou a cabeça, para “facilitar” a adequação. E se o viajante fosse menor, seu corpo era esticado a fim de caber no espaço a ele designado. Procusto usava a si mesmo como “a medida única para todas as coisas”. A isso chamava justiça... Sua aparente benevolência era um atrativo para as vítimas que, mais cedo ou mais tarde, para mais ou para menos, pagavam com seu próprio corpo.


Talvez Procusto tenha sido, ainda que em termos mitológicos, um dos primeiros normatizadores de que se tem notícia. A lenda nos ajuda a compreender questões relativas à dificuldade em lidar com aquilo que escapa ao que é esperado como normal, padrão, adequado, comum, com aquilo que é diferente e foge a uma conhecida e determinada curva de normalidade ou de normatização do sujeito...


O divã da psicanálise é bastante distinto do divã de Procusto. Opera em outra lógica. Em outro sentido. E está relacionado com a essência do saber psicanalítico que, desde suas construções iniciais, refere-se a uma espécie de crítica a qualquer tentativa de normalização, pedagogização e condicionamento, buscando compreender o que está para além ou aquém destas fronteiras e que diz respeito à subjetividade em sua pluralidade.



O divã de Freud, um mobiliário azul com várias almofadas e um tapete aos pés, para que o paciente pudesse se aquecer e se aconchegar, foi presente de uma de suas pacientes, Madame Benvenisti (que após o término do tratamento, estava muito grata a Freud e quis concretizar esta gratidão, presenteando-o).


A partir de então, o divã passou a fazer parte do cenário psicanalítico como um convite ao paciente para que, deitado, em contato mínimo com estímulos que possam “distraí-lo de si mesmo” e sem a interferência do olhar do analista, ele possa entregar-se à sua própria história e ajustar-se a um lugar (psíquico) que é somente seu.


É este um dos objetivos da psicanálise que, como ferramenta de interlocução, possibilita que “o sujeito torne-se não conforme a norma, mas segundo ele mesmo” (Mannoni, 1991). E não em conformidade com algo que lhe é imposto de fora para dentro, mas de acordo com aquilo que ele se dá a conhecer de si mesmo, do que a cada um é possível fazer-saber de si.


Assim, podemos dizer que numa experiência analítica, que não se reduz a uma tentativa de ortopedia ou engessamento psíquico, o sujeito experimenta o que seria uma travessia pela sua vida, enfrentando-se com a decepção, com a dor e com a perda de algumas ilusões, mas também podendo tomar conhecimento de suas possibilidades, de seus limites e suas responsabilidades.


É nesse sentido que o divã na psicanálise propõe uma acolhida para aquele que se dispõe a esta viagem para o insólito e desconhecido de si mesmo. Mares calmos não serão garantidos, mas a parceria analista-analisando possibilita a navegação por estes mares talvez nunca dantes navegados...



Leila Veratti

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP leilacsantos@hotmail.com


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