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É o destino


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“É coisa do destino”, “já está escrito”, “o que é para ser será”, dizem muitos. A ideia de destino é uma representação que acompanha a humanidade.


O homem sempre angustiado em saber o futuro e em decifrar o sentido de todos os acasos da vida, busca contrabalançar suas incertezas recusando o acaso e o acidental, e assim, coloca na “conta” do destino ou da vontade dos deuses o rumo dos acontecimentos. Desta maneira, tudo estaria previsto, sabido, escrito.


A noção de destino traz a ideia de que cada qual tem seu lugar marcado, se opõe ao livre-arbítrio e nos coloca diante do problema da responsabilidade. O destino desresponsabiliza o sujeito: o sentido ou não sentido dos acontecimentos da vida está escrito em outro lugar, independentemente do sujeito e da sua escolha.


Há angústia na necessidade de fazer escolhas e, mais ainda, ter de aceitar o resultado do que se escolheu. Essa angústia pode se expressar na forma de desgosto, desassossego, inquietação. Daí uma forma de justificar os acontecimentos e legitimar frustrações é imputar as causas dos fatos e comportamentos ao destino.


Essa tentativa de apaziguar as angústias do existir aparece em uma das poesias do filósofo Friedrich Nietzsche que diz: “Destino, sigo-te! E mesmo que não o quisesse, deveria fazê-lo, ainda que gemendo”.


A convicção de que tudo “já está escrito” evita a turbulência mental que advém quando é preciso decidir, assumir, enfrentar as responsabilidades.


A responsabilidade une, num laço de solidariedade, o sujeito a seu ato, o que o coloca na situação de ter de responder por este. Acrescenta-se a este laço as consequências, que lhe são igualmente atribuíveis.


Com Freud, aprendemos a substituir o destino pelo inconsciente. Seremos responsáveis por nossos atos, escolhas e pelos acontecimentos em nossas vidas, ainda que conscientemente desconheçamos seu sentido. Os desejos têm seus caprichos e suas perversidades.


Felizmente, podemos questionar nossas experiências, através da dúvida e da crítica adquirir um saber sobre nós mesmos. Felizmente, há a capacidade de representar as coisas, dar-lhes significados e adaptar nossos atos a suas representações, descolando-as da realidade imediata, projetando-nos no futuro, usando a experiência passada.


Nossa liberdade nasce essencialmente da faculdade de colocar em linguagem, de dispor dos signos para falar e pensar, em suma, de nos reinventarmos. Ela se origina também da multiplicidade de determinantes que se conjugam, se contrariam ou se neutralizam de uma forma complexa.


O único destino contra o qual nada pode ser tentado é o fato inelutável da morte. Da vida podemos fazer histórias, nossa história, dar-lhe um sentido, escrevendo-a por nossas próprias mãos.


Esperar, ficar no aguardo do que vier e supor que há um enredo previamente elaborado por forças alheias a nós, mostra uma postura pouco cuidadosa e, até, irresponsável.



Daisy Maria Ramos Lino

Psicanalista, membro do TRIEP.

daisy_lino@hotmail.com

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