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Gaslighting e o medo do desamparo

Gaslighting é um termo que designa relações abusivas nas quais a pessoa não consegue confiar nas suas próprias avaliações, sejam elas relativas aos seus pensamentos ou à própria percepção que tem da realidade, devido a uma constante manipulação por parte do seu parceiro ou parceira. Assim, diante de qualquer dúvida que a pessoa possa ter sobre as condutas do companheiro, é refutada por este dizendo a ela que está confusa, fazendo-a acreditar na palavra dele ao invés da própria percepção que tem da situação.



A estratégia é passar o problema para o outro ao invés de assumir que há algo errado. Um exemplo pode se dar quando o(a) companheiro(a) trai o cônjuge com a qual se relaciona, mas inverte a situação; diz que é este quem tem ciúmes e não ele(ela) próprio(a) quem o está traindo. Outra forma de distorção ocorre quando o(a) parceiro(a) diz não ter olhado com malícia quando conversava com uma outra pessoa, por exemplo, na intenção de falsear os fatos de modo a própria parceira(o) negar a realidade que se apresenta.


Tais modificações são feitas, justamente, para desqualificar a avaliação do parceiro ou da parceira. O intuito é causar dependência emocional para gerar um controle tanto da situação como do outro que passa a se sentir nas mãos do manipulador, já que depende da sua palavra ao invés de confiar em si mesmo. A pessoa passa a esperar a confirmação do que sente e pensa do outro, ficando cada vez mais insegura e vulnerável.


Há uma paulatina subserviência ao outro. Tal devoção tem como contraponto a espera por um amor que prometa exclusividade: “somos só nós dois, não precisamos de mais ninguém”. No entanto, o que de fato ocorre é um cerceamento da vida social daquele que sofre com o gaslighting e o consequente isolamento gradual do convívio com os outros.


A pessoa passa, cada vez mais, a não confiar em si mesma, já que qualquer dúvida é interpretada pelo parceiro(a) como confusão mental ou incapacidade de julgamento, como se a(o) parceira(o) estivesse ficando louca(o). Deste modo, o(a) manipulador(a) detém a palavra que passa orientá-la(lo), dizendo oferecer um lugar de cuidado e exclusividade, mesmo que custe a liberdade do(a) parceiro(a).


O que se constata é que cada um está ocupando um lugar diferente nesta relação de suposta exclusividade: há um que domina e o outro que é dominado. Com o tempo, passa-se a falar menos o que se pensa por medo de perder esta suposta devoção daquele que está, na verdade, na posição de poder. A oferta de um lugar especial de cuidados e palavras gentis se confundem com a opressão exercida.


Freud, em seu belo texto “Mal-estar na civilização”, fala sobre o sentimento de desamparo no qual as pessoas se deparam:


“[...] ela [a pessoa] deve ter um motivo para submeter-se a essa influência estranha. Esse motivo é facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas, e pode ser mais bem designado como medo da perda de amor. Se ela perde o amor de outra pessoa de quem é dependente, deixa também de ser protegida de uma série de perigos. Acima de tudo, fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre sua superioridade sob forma de punição. [...] (p. 147).



O tipo de manipulação no gaslighting mexe com o desamparo, em que o parceiro oferece palavras que sancionam aquilo que a pessoa duvida de si mesma, levando a uma sensação de uma suposta proteção por esta orientação e direcionamento. A ideia de ser amado está intimamente ligada com a sensação de estar protegido. Este é um dos pontos que deve ser revisto para aquele que se encontra neste tipo de relação para que possa, gradualmente, recolocar-se de modo a não mais temer tanto o lugar onde encontra-se desprotegido.



Fabiana S. Pellicciari

psicanalista, membro efetivo do TRIEP

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