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Gostosuras ou Travessuras


Nessa propaganda, veiculada em 2014 na TV, assistimos um menino que brinca muito e vai “aprontando” várias travessuras. Essas cenas são acompanhadas ao fundo pelos nãos da mãe, musicados em vários tons.


A mãe diz não a tudo que o menino faz, o tempo todo, até que um derradeiro não, quando ele chutaria uma bola na sala, o faz parar imobilizado. Na cena seguinte, com a fala de um locutor ao fundo vemos a mãe lhe dando uma "gostosura com mais leite” e, a propaganda conclui com a afirmação: “às vezes dá para a mãe falar sim”, ou seja, dar um chocolate. Podemos até nos divertir, identificados com esse menino que se mostra tão vivaz, alegre e expressivo.


O brincar, como diz Freud, é coisa séria porque expressa desejos que buscam elaborações mentais, uma espécie de “correção” de uma realidade difícil de ser compreendida ou insatisfatória. Uma realidade que se apresenta repleta de questões (como o menino da propaganda que corta o cabelo da boneca da irmãzinha, já que não é o único filho na cena), de embates (por que não se é o único para a mãe?) e inconformismos.

Agora, por que essa mãe diz somente não, sem nenhuma explicação ou conversa? Sei... Porque esse menino parece que dá muito trabalho: bate na irmã, sobe no armário, corta o lençol para fazer roupa de fantasma, põe óculos no cachorro, puxa a toalha da mesa para fazer capa de super-herói, limpa a boca na toalha de mesa, corta o cabelo da boneca da irmã, etc. e tal. E quem disse que filho não é para dar trabalho mesmo!


Filho, qualquer um deles, dá trabalho porque é um outro, uma outra pessoa, um outro ser. Muitas mães acreditam que os filhos precisam delas em demasia, precisam ser demasiadamente boas, pois “sabem o que é melhor para eles” e que um menino(a) tem que se comportar de forma “imobilizada”, parado nas expectativas dela. Se ficar parado(a) “na da mamãe” se ganha um chocolate!


Quando o filho se apresenta fora do ideal esperado, diferente, dando um trabalho danado com suas travessuras porque é um outro ser (pensante e desejante), parece que, o que essas mães vão entendendo é que isso é uma inadequação e precisa ser usado um corretivo – “Não e não” – sem papo, sem conversa, sem a consideração de que ali existe um outro.


O quanto essa é a expressão de um sofrimento materno? O sofrimento pela diferença insuportável entre a maternidade idealizada e a maternidade real.


Todos os pais tem dúvidas se são bons ou não, a questão é como suportar essas dúvidas por toda a vida. Uma projeção da inadequação entre seu ideal de maternidade que acaba sem a possibilidade de ser confirmada pelo filho que não funciona como um “bom” espelho.


Tornar-se mãe e tornar-se pai, porque só se constitui pai ou mãe junto com o filho, inclui a pré-história individual de cada um dos pais. O desejo de ter um filho reatualiza as fantasias parentais infantis e o tipo de cuidados que tiveram. Então, algo já está psiquicamente colocado bem antes da concepção, gestação e nascimento do filho.


Matar o ideal para que viva o real, ou matar o real para que ilusoriamente a ficção se realize? Vida ou loucura? Travessuras ou gostosuras?


Dizer não ao filho, conversando, pensando no que acontece, no que está acontecendo, vai implicar em suportar ser odiado e, apesar disso, sobreviver.

Daisy Maria Ramos Lino

Psicanalista membro do TRIEP

daisy_lino@hotmail.com

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