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O que eu quero ser quando crescer?

Quando pequenos, dizemos que “brincamos de ser”, uma expressão que diz da possibilidade de encenar simbolicamente, no faz de conta das brincadeiras infantis, diversos personagens de uma determinada situação que é importante para a criança, já que representa as questões do seu inconsciente, que é o lugar onde não há como ser acessado totalmente pela consciência, mas mesmo assim, pode ser representado no brincar.



Dentre essas coisas que a criança brinca de ser, estão as profissões dos adultos: brincamos que somos médicos, professores, policiais, etc., ou seja, antecipamos realizações que ainda não nos são possíveis em nossa vida prática, mas que, mesmo assim, permite-nos articular a questão: “o que quero ser quando crescer?”.


Faz parte desse processo, descrito acima, que os adultos, que são significativos para nós, nos digam o que desejam para a nossa vida adulta: “leva jeito para ser artista, é muito criativa como sua tia”; “é todo meticuloso, vai ser matemático como o pai”; etc. Dessa maneira, a criança é colocada em uma rede geracional onde suas características se ligam com a de seus familiares a partir de algum traço especial, que se refere a alguma habilidade que possibilitará aos pais projetarem seus desejos nos filhos, entre eles, o de que exerçam uma determinada profissão. Desejo a partir do qual, futuramente, enquanto jovem adulto, aquela criança passará a se posicionar.


Porém, pode ser que essa antecipação, tão necessária no tempo da infância, encontre dificuldades de ser posta à prova quando chegar a hora da passagem para a vida adulta. Quantos jovens sofrem com uma dificuldade de tomar alguém como modelo para escolher uma profissão, por não conseguirem se posicionar frente ao desejo parental? Ficam numa espécie de limbo, onde nada importa e tudo é possível, revelando, no final das contas, essa falta de referência por onde se apoiar para seguir em frente.


Percebemos como também há outros tantos jovens que custam a tomar a própria vida nas mãos e se separar dos seus adultos significativos, com medo de verem que o futuro não se assemelha ao que tinham em mente ou com a promessa que seus pais lhes fizeram.


Pode ser também muito custoso para alguns pais deixarem seus filhos dar um passo à frente com suas próprias escolhas, seus próprios tropeços, seus próprios erros e acertos; ou para alguns filhos se aventurarem a abandonar um lugar seguro e certo para começar a pagar o preço por suas próprias escolhas.


O lugar dos pais de uma criança muda quando os filhos crescem e se tornam adultos. Esses pais precisam aprender a suportar os diversos questionamentos que seus filhos passam a lhes fazer, pois os tornam, cada vez mais, humanos. Não podem mais lhes dar uma palavra garantidora de um futuro promissor, como ocorrera no tempo da infância e que foi tão importante para a criança ter um chão possível por onde pisar e construir caminhos por onde se projetar como adulta.


O jovem adulto precisará se arriscar para pôr à prova isso que seus pais lhe anteciparam, mesmo em condições adversas e com todas as dificuldades aí implicadas, para saber como se sairá sem ter garantias prévias. A situação de separação é difícil para ambos os lados.





Nesse sentido, é preciso substituir a pergunta inicial “o que eu quero ser quando crescer?”, que demandava por uma resposta pronta e garantidora de um futuro certo, por outra: “o que me instiga?”, já que se trata muito mais de seguirmos por aquilo que nos interessa e que, necessariamente, implicará nas dificuldades inerentes a esse processo, do que partir rumo a uma ilusão de felicidade plena.


Assim, há uma outra forma de conceber a realização na vida adulta, que passa necessariamente a comportar as perdas e os ganhos de uma satisfação possível, ao invés de tentarmos ser, de maneira idealizada, aquilo que imaginamos que nossos pais gostariam que fôssemos.


Fabiana Sampaio Pellicciari

psicanalista membro do TRIEP

fabiana.pellicciari@gmail.com

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