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O que fazer com os nossos gatilhos?

Ultimamente tem circulado muito no meio social expressões ligadas aos “gatilhos” emocionais que podemos estar expostos. O que isso significa? De uma forma geral referem-se a situações atuais que disparam lembranças passadas, nos deixando tomados por algum tipo de emoção ruim, na maior parte das vezes. São expressões do tipo “aquilo que ele falou, disparou um “gatilho” em mim que não me faz bem”. Diante de tal fato, precisamos pensar alguns posicionamentos que possamos vir a ter frente aos nossos “gatilhos”.



Uma dessas respostas pode ser defensiva quando queremos nos afastar daquilo que dispara os nossos “gatilhos”, acreditando que ao mantermos longe o que supostamente causa o “nosso mal”, estaremos fazendo “um bem” a nós mesmos. Será?


Freud, em seu brilhante texto O futuro de uma ilusão, atesta que buscamos a força de um pai todo poderoso para nos assegurar proteção e, assim, evitar a dor frente ao nosso desamparo. Porém, tal mal-estar fica atestado pelo próprio fato de não podermos tamponar esse desamparo que nos é constitutivo, e não contingente, como gostaríamos de fazer crer. “Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar” (Freud, 1927/1990, p. 27).


Em outro importante texto da obra freudiana, O mal-estar na civilização, Freud nos explica que o mal-estar, que é inerente à condição humana, acaba sendo atribuído às outras motivações, externas ao próprio sujeito. Vemos como podemos aproximar esse fato da atual conjuntura que vivemos: neste atual mundo cheio de incertezas, podemos tentar impedir tudo aquilo que nos desperte o que nos causa mal-estar.


Porém, os nossos “gatilhos” atestam justamente tal impossibilidade de termos uma suposta autonomia em nossa relação com os outros, sem nenhum tipo de afetação. E a saída não é pela via de um fortalecimento do nosso “eu”, como muitas pessoas buscam. Não se trata, portanto, de retirar o nosso “eu” dos “outros” em uma tentativa de controle sobre o que sentimos.


Como bem fala a influenciadora digital Jout Jout, em seu vídeo intitulado Jout Jout e sabedorias da tia: os incômodos nas relações e no dia a dia que dizem muitos sobre NÓS: “bateu? doeu? pega que é teu!”, ou seja, precisamos nos perguntar e elaborar as nossas próprias respostas sobre aquilo que, a partir do outro, nos diz respeito. E sim, vai doer e incomodar bastante, a depender do nível de nossa tentativa de fuga. Fugimos de quê? De nós mesmos, em última instância, mesmo que o “gatilho” parta do mundo que nos cerca e das pessoas ao nosso redor.



Em um outro video, dessa vez do ator Will Smith, Culpa x responsabilidade, em que diz que mesmo que o culpado seja uma outra pessoa que nos tenha causado algum tipo de trauma, é nossa responsabilidade saber o que fazer para lidar com tal situação. Parece-me de grande importância essa reflexão por propor nossa implicação naquilo que o outro nos fez, por pior que tenha sido.


Vemos como não adianta nos esquivarmos do que nos diz respeito, bem como não teremos êxito em nossa empreitada por uma vida sem nenhum tipo de dor ou incômodo. Assim, uma saída possível para os nossos “gatilhos” seria aquela que nos coloque a sentir e a nos perguntar da nossa participação naquilo que nos causa algum tipo de afetação, ao invés da busca por uma vida anestesiada e ausente de nós mesmos.


Fabiana Sampaio Pellicciari

psicanalista membro do TRIEP

fabiana.pellicciari@gmail.com


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