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O valor da moderação

Atualizado: 21 de jul.

Coisa de dois meses assisti um show de Lia de Itamaracá, compositora e cantora de cirandas que está com 78 anos e segue a plenos pulmões. No início do show, sobe ao palco o apresentador do espetáculo, saúda todes, todas e todos e conta um pouco sobre ela. Após a primeira canção Lia segue com algumas passagens de sua vida.


Dentre essas histórias, conta que a mãe, empregada doméstica, tinha em sua infância encontrado um “muito bom patrão”, que permitia que levasse ao trabalho seus oito filhos. Minha impressão é que essa colocação causou um certo desconforto no clima de bom humor que se fazia.


Recentemente pude escutar a Elizabeth Roudinesco (historiadora e psicanalista francesa) falar sobre seu novo livro: O eu soberano, ensaio sobre as derivas identitárias. O debate que ela busca levantar (livro que ela diz ser difícil porque reivindica um lugar moderado e não extremista) se inicia ao ser recebida em Beirute, para um jantar onde o anfitrião a recebeu dizendo-se encantado em receber uma ortodoxa. Ela diz não ser ortodoxa, comenta sobre sua origem. Assim se inicia o livro tratando de questões sobre o estado laico, o narcisismo validado no mundo atual e sua incapacidade para a violência que se apresenta quando o outro é reconhecido como inimigo e sua diferença negada.


Em sua fala ela lembra que essa divisão dos grupos cada vez com maiores especificidades podem ser levadas ao infinito. Mesmo que partindo de um lugar incontornável de importância o fenômeno leva a uma tensão com o que poderíamos reconhecer como uma subjetividade humana universal. Os grupos tendem ao radicalismo e ao aumento da violência.


Em uma longa nota de rodapé, no texto “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão” de 1910, na edição da Imago, o editor brasileiro recorta um trecho onde Freud explica que sempre repetiu que sua teoria apresenta o psiquismo tendo que lidar com conflitos, que no momento ele apresenta como pulsões sexuais e pulsões do Eu. Seria justamente por ignorar esse aspectos que alguns críticos o acusaram de um pansexualismo. Freud revê sua teoria em 1920 e os conflitos com o qual o aparelho psíquico teria que lidar serão atualizados em pulsão de vida e pulsão de morte. Em 1930, Freud no texto “0 mal-estar na civilização”, mostra como a civilização é custosa para nossos anseios mais radicais que não são pacíficos nem harmoniosos com as diferenças.



Ao supor que a estranheza foi generalizada quando ouvi Lia dizer “bom patrão”, me deparo com a facilidade com que pude imaginar que todos faziam parte de um grupo uníssono e que perceberam a situação de forma similar a minha. Atravessados por um reconhecimento preconcebido e apressado, qualquer roda de conversa, qualquer ciranda, qualquer grupo, terá sempre que lidar com a tensão do individual e do coletivo de forma que, impossibilitados de uma realização plena de nossos anseios narcísicos, tenhamos que tornar possível a civilização em uma convivência dentro da fragilidade democrática e a resistência à pressão de grupos que almejam um totalitarismo.


Gustavo Florêncio Fernandes

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP

gusff@hotmail.com

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