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Padecer no paraíso

Cerca de um mês atrás, publiquei aqui no site um artigo sobre maternidade e alguns aspectos sobre suas idealizações e “imperfeições”. Após receber alguns comentários nas minhas redes particulares, achei que poderia ser importante retomar o tema, desta vez para dizer um pouco mais especificamente da função materna, aspecto fundante e constitutivo do psiquismo, bem como dos entraves que podem se apresentar após o nascimento de um bebê, dificultando ou impedindo que uma mãe consiga se colocar no exercício desta sua função (cabe antes mencionar que, embora boa parte das vezes, a função materna seja empreendida pela própria mãe, ela pode ser exercida por qualquer outra pessoa que toma para si os cuidados básicos com o bebê, que seja capaz de investir nele emocionalmente e que possa estabelecer com ele um vínculo afetivo).



Numa de suas conferências para a Sociedade Britânica (1952), o psicanalista inglês Donald Winnicott chamou a atenção de seus ouvintes ao dizer que “não existe isso que chamam bebê!”. Após instantes de alvoroço, começou a explicitar que, devido ao desamparo constitutivo a todo humano, o bebê não resiste se não for investido e amado por um outro humano, capaz de cuidar e investir amorosamente nele. E para que isso aconteça, é importante que se coloque em jogo o que ele chama de função materna.




A esta função ele atribui alguns estágios referentes aos modos de cuidado que a mãe desenvolve com seu bebê. Entre eles, estão a preocupação materna primária, com a presença da capacidade de holding e handling e a apresentação, pela mãe, de objetos do mundo externo. A cada período de vida do bebê, estes estágios se colocam como sendo mais necessários ou com a possibilidade de ficarem em “segundo plano”.


O primeiro destes estágios (e neste artigo vou me deter a qualificar somente este) diz respeito à preocupação materna primária. Ele começa a se apresentar ao final da gestação e nos primeiros dias de vida do bebê, e diz respeito à uma regressão psíquica da mãe, que a possibilita identificar-se com seu bebê, dirigindo a ele sua atenção, seus investimentos afetivos, podendo proporcionar a ele cuidados de alimentação, higiene e sono, observar seu ritmo e colocá-lo como prioridade, sentindo-se em sintonia com ele e sendo capaz de compreendê-lo e de satisfazer suas necessidades. É um período necessário de reconhecimento mútuo entre a mãe e o bebê.


Para Winnicott, é preciso que a mãe entre neste estado, mas também é necessário que consiga desvencilhar-se dele, para que um processo de diferenciação entre ela e o bebê possa se instalar. No entanto, durante este trabalho psíquico inicial que a mãe faz com seu bebê, há outros trabalhos psíquicos acontecendo em paralelo.


Durante a gestação e logo após o nascimento do bebê, a "mãe recém-nascida" passa por todo um processo de transformação e elaboração psíquica que dizem respeito às transformações de seus lugares psíquicos (da filha, que ela era até então, em mãe), de sua imagem corporal e da relação entre a sua maternidade e sua sexualidade. Dependendo do modo como estes processos são realizados psiquicamente, eles podem desencadear quadros clínicos, que se articulam desde o chamado baby blues até a psicose pós-parto.


O "baby blues" (numa referência à melodia nostálgica do blues) é o mais comum, menos grave e menos intenso, apresentado por cerca de 80% das mulheres. Ele se apresenta por alterações de humor que oscilam entre “momentos de alegria seguidos de tristeza. É marcado por certa melancolia e pela sensação de incapacidade ou medo de não saber ou não conseguir cuidar do bebê.” (Vera Iaconelli, psicanalista). Entre os sintomas, apresentam-se também uma certa sensação de fragilidade, insônia e exaustão, decorrentes do processo inicial de adaptação da mãe à nova rotina com seu bebê.


A depressão pós-parto tem se apresentado frequente em cerca de 15% dos quadros clínicos. Quando o baby blues se estende, em lugar de se dissolver logo após as primeiras semanas após o parto, intensifica-se uma sensação de tristeza mais acentuada seguida da incapacidade da mãe em manter os cuidados com seu bebê; experiências nas quais a mãe se percebe invadida por sentimento de culpa; situações mais frequentes de oscilação de humor; dificuldades para dormir, descansar, cuidar de si e do bebê, e dificuldade em lidar com esta nova configuração.


A psicose pós-parto tem uma menor incidência. Cerca de 0,2% dos quadros clínicos remetem a estas manifestações que têm como características a depressão instalada por um período um pouco mais prolongado, somando-se a isso delírios e pensamentos da mãe de que pode ferir seu bebê ou a si mesma, não reconhecendo a si como “a mãe”, nem reconhecendo o bebê como “seu filho”, podendo caminhar para um distanciamento afetivo ainda maior que representa, para o bebê, a perda do amor materno.


Em cada uma destas manifestações, está em jogo a saúde psíquica da mãe e do bebê. A gravidade dos quadros, que se diversificam desde um desinvestimento temporário no bebê, até uma brusca e longa retirada do interesse materno nele, variam muito e afetam ambos os envolvidos nesta relação inicial.



Do lado da mãe, é possível que muitas vezes ela consiga cuidar de seu bebê, mas de modo automatizado, algumas vezes privilegiando os cuidados essenciais de alimentação e vestimenta. Mas sem conseguir banhar seu filho em interesse vívido, cuidado amoroso, segurança e sustentação. Pode até estar de corpo presente, mas seus ideais, fantasias e desejos, passam longe da relação dela com seu bebê. Suas vivências psíquicas dolorosas a impedem de investir nesse vínculo. Mergulhada em uma espécie de luto, por algum episódio que não necessariamente envolve o bebê, a mãe não consegue desejá-lo, nem ligar-se a ele. Do lado do bebê, esse distanciamento é vivido como catastrófico, traumático e de intensa angústia, deixando-lhe marcas psíquicas que ecoarão ao longo de sua vida.


As mudanças decorrentes da transformação da mulher em mãe requerem um laborioso processo psíquico. E muitas vezes a mãe precisa também se sentir cuidada e acolhida em seu sofrimento, para que possa reconhecer-se como uma mãe suficientemente boa, capaz de maternar, vinculando-se a seu bebê. Dar lugar a isso, pode ser o que viabiliza o início do enlace de uma história a dois, constituída sim por seus entraves e paradoxos “comuns”, mas com percalços possíveis de receberem contorno e “configurações suficientemente boas”, diminuindo, para ambos, o mergulho em angústias impensáveis.



Leila Veratti

Psicanalista, membro do Triep leilacsantos@hotmail.com


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