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SER PAI É REVIVER A PRÓPRIA INFÂNCIA

  • Foto do escritor: Triep
    Triep
  • 5 de ago.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A família é a base indispensável para o desenvolvimento saudável da criança. Os cuidadores exercem papel crucial ao garantir proteção, estímulo adequado, promover o aprendizado da linguagem, introduzir o universo simbólico e facilitar a internalização dos valores essenciais da cultura em que a criança está inserida.



A história de uma criança começa antes dela nascer, ligada às experiências individuais de seus pais. O desejo de ter um filho traz de volta aspirações, memórias da infância e rememora os cuidados que os pais receberam quando criança.


Freud, em 1914, ao explorar a temática do narcisismo, mostrou que vivemos na primeira infância uma fase de onipotência, ou seja, um estado psíquico em que temos a sensação de estarmos no centro do mundo. O crescimento e o encontro com a realidade (frustrações, limites) força o abandono progressivo dessa posição psíquica, mas deixa um resto: um anseio inconsciente por reencontrar aquela suposta "plenitude perdida".


Esse resto retorna no vínculo emocional dos pais com os filhos. Freud descreveu com uma imagem - "Sua Majestade, o Bebê" - a forma como os pais depositam no filho uma expectativa emocional, a de recuperar aquilo que tiveram que renunciar: a onipotência, a perfeição, a isenção das limitações que a vida impõe.


Esse fenômeno coloca a criança em um lugar especial (bom ou não) na mente dos pais: ela funciona como uma espécie de "reparação", aliviando a ferida emocional relacionada ao narcisismo perdido. Por isso o simples ato de conceber a ideia de ter um filho pode inundar os pais de lembranças, fantasias e sentimentos vindos de suas primeiras relações afetivas. É o narcisismo parental tentando, através do filho, encontrar um caminho de volta.



A decisão de ser pai implica revisitar aspectos do próprio narcisismo, além de lidar com memórias e fantasias associadas aos laços estabelecidos nos primeiros vínculos afetivos. Esse processo também é impactado pela identificação edípica com figuras parentais, isto é, os modelos internalizados de autoridade e de "ser pai". Ao mesmo tempo, envolve reelaborar a relação mais primitiva com a figura materna, pois passará a exercer, ele próprio, a função de cuidador que antes só reconhecia nela.


O papel do pai, no contexto familiar, funciona como mediador entre mãe e bebê: auxilia a mãe a perceber a criança como um sujeito independente e distinto dela. Para o pai, aliás, o bebê já é visto desde o início como um ser separado, externo.


Ao chegar ao mundo, o bebê desempenha um papel transformador, ressignificando os fantasmas parentais e possibilitando que os pais ajustem suas fantasias formadas na infância. E o bebê não é passivo nesse processo: suas reações, respostas e comportamentos influenciam diretamente o cuidado que recebe, estimulando novas dinâmicas de interação que vão além dos modelos que os pais internalizaram.


Estudos sobre a intersubjetividade primária mostram que o bebê já nasce com capacidades inatas para relações e interações sociais. Mas essas pesquisas sempre apontam uma condição essencial: só um ambiente afetivo sensível às necessidades do bebê permite que essas capacidades se desenvolvam de fato.


Nesse cenário, as fantasias parentais sobre o bebê — que incluem medos, expectativas, sonhos, lembranças de suas próprias infâncias e os modelos parentais internalizados — desempenham um papel central na construção do senso de identidade própria (self) do sujeito. 


Daisy Lino

Psicanalista, membro fundador do TRIEP

@daisy_lino

 
 
 

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