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Sua majestade, o doguinho!

Sim, o doguinho, ou melhor, os pets, estão ocupando um lugar muitíssimo especial na vida dos humanos, o lugar majestoso que outrora, ao menos psicanaliticamente falando, cabia à majestade, o bebê, desde as definições de Freud em seu artigo “Introdução ao Narcisismo”, fazendo referência a um lugar psíquico, investido por um outro humano, capaz de, através deste investimento narcísico, transformar um pedacinho de gente em um ser humano complexo. Agora esse lugar de investimento narcísico parece pertencer aos pets!



Poucos dias atrás, a empresa publicitária OnePoll, nos Estados Unidos, publicou uma pesquisa que tinha como objetivo saber se “Você fica mais feliz ao ver seu pet ou seu crush?” Sem titubear, 36% dos entrevistados da Geração Z (nascidos entre 1990 e 2010) responderam que ficam mais felizes ao verem seu animal de estimação do que seu “contatinho”. A porcentagem sobe para 48% quando a pergunta aos entrevistados diz respeito a toparem abrir mão de um relacionamento por um ano, se isso implicasse em um ano de vida a mais para seu pet... E não para por aí. 72% da geração de nascidos entre 1960 e 1980 e de 1990 a 2010 (gerações X e Z) afirma que prefere investir suas economias em seu pet a fazer alguma viagem de férias!


Sorte a desses bichinhos, não? Um lugar todo especial, requer, talvez, uma pergunta sobre tamanho privilégio. Por que nos dedicamos com tanto amor a estes seres?


Freud era um grande admirador dos animais, em especial dos cães. Uma de suas cachorras, Jofie, o acompanhava na sessão com seus pacientes. Era ela que, ao se levantar “dos pés do divã”, anunciava que a sessão havia chegado ao fim. O criador da psicanálise acreditava que os animais eram capazes de sentir e apaziguar o sofrimento emocional de seus pacientes. E até mesmo o dele.


Em uma de suas entrevistas, ele conta que soube que estava prestes a morrer quando, por ocasião do avanço de sua doença, uma de suas cachorras, Lün, se afastou dele, dando-lhe as costas, em reação ao odor que ele exalava de seu maxilar, em decorrência dos agravos de um câncer...


Ele atribui essa capacidade dos animais (domésticos, principalmente cães e gatos) de sentir, perceber, apaziguar, como resultante do fato destes animais, diferentemente dos seres humanos, não sofrerem de uma personalidade dividida, de um ego que busca se adaptar às exigências da sociedade e da cultura. O animal simplesmente é.


Tamanho encanto por esses seres não se limitou a Freud. E propiciou que alguns outros psicanalistas buscassem compreender a função dos animais de estimação para os humanos.


Françoise Dolto, pediatra e psicanalista francesa, por exemplo, em ressonância às afirmações de Freud, diz que “os animais são os mediadores daquilo que os seres humanos sentem”, e a partir disso, observa a relação da criança com seu animal de estimação e o quanto esta relação seria constitutiva de seu narcisismo. Nesta relação, estão expressas identificações, projeções, ideais, expressões de confronto, conforto, amizade... o que nos permite pensar o quanto, enquanto humanos, buscamos nos animais de estimação, uma espécie de relação ideal por vezes impossível de estabelecer com outro humano.


Nesta relação de diferentes, projetamos no nosso animalzinho, um tanto de nosso desamparo, outro tanto da maneira como gostamos de cuidar e ser cuidados, e mais um tantão do quanto acreditamos haver ali algumas certezas e garantias do quanto este amor ao nosso pet é recíproco, e é a maior representação de fidelidade, lealdade, parceria e “cãopanheirismo”.


Além disso, na interação com um doguinho (mais especificamente), é possível experimentar o que Winnicott chamou de espaço potencial, momento em que não estamos nem totalmente na realidade externa, e nem totalmente imersos em nossa realidade interna. Mas transitamos num espaço de criação, brincadeira e inventividade que nos permitem o resgate do lúdico e da experiência criativa, espaço de grande importância para nosso psiquismo e subjetividade.



Outro ponto curioso, é trazido por Vladimir Safatle, filósofo, escritor e músico brasileiro, em um texto antigo, no qual ele conta que Ulisses, ao retornar de sua Odisseia, vestido de mendigo, entra em casa e não é reconhecido por sua Penélope. Ela precisava de garantias de que aquele era seu amado. Mas Argo, seu cão, o reconhece imediatamente. E logo morre em seus braços, como se apenas estivesse aguardando seu retorno para um reencontro. Aqui Safatle salienta que o cão reconhece em Ulisses sua animalidade, esta que tanto tentamos disfarçar, esconder, camuflar... “O cão aparece na Odisseia como o único capaz de reconhecer algo como o “ser bruto” de Ulisses. (...) haveria algo em nós que só é reconhecido através dos olhos de um animal? (...) talvez ele encontrasse sua certeza no resto de animalidade que existe em nós (...) estamos tão presos à procura de reconhecimento por outros sujeitos, precisamos tanto do assentimento fornecido por outros sujeitos que esquecemos como, muitas vezes, o que nos reconforta, o que nos diz realmente que estamos em casa é ser reconhecido por um animal, ser reconhecido por algo que, afinal, não é uma consciência de si. Os animais percebem os animais que ainda somos, eles nos lembram de um “aquém” da individualidade a respeito da qual nunca conseguimos nos afastar totalmente.”


Todas estas variáveis estão presentes em nossa relação com um animal de estimação. Apesar de tudo e qualquer coisa, ou para além de representar nosso duplo, ele apenas nos estima. Ao contrário das relações humanas que nos exigem trocas, o amor de um animal de estimação por nós parece não fazer exigências. Há um aparente amor desinteressado, que nada pede em troca, e que tudo oferece. Parece perfeito né? E para alguns, isso já é o suficiente!



Leila Veratti

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP leilacsantos@hotmail.com

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