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Tudo em todo lugar ao mesmo tempo na Matrix

Atualizado: 24 de mar. de 2023

Passados os minutos iniciais do filme, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”, a história insólita com estética acelerada que pode perturbar o espectador, vai se tornando perfeitamente alinhado com seu título.

Ao mesmo tempo que a vida da protagonista, Evelyn Quan Wang (Michelle Yeoh, vencedora do Oscar de melhor atriz em 2023), ocorre em uma história apresentada como “oficial” e aceitável para nosso reconhecimento imediato como “a realidade”, somos logo apresentados a “mundos” paralelos, frutos de outras escolhas e acontecimentos, como bifurcações não acessíveis a todos e com consequências completamente distintas. Nesses mundos paralelos coincidem os atores, porém suas personagens tiveram destinos e personalidades diferentes da primeira história que temos contato no filme.


O inevitável espanto de Evelyn frente a experiência desses mundos distintos, porém não menos reais me levam a uma ideia que me parece incontornável: em algum momento o espectador será remetido a Matrix.


No filme “Matrix” (1999), Neo o protagonista, é apresentado a um mundo sem o véu criado pela Matrix onde pôde ver a destruição causada pela poluição e pela dominação das máquinas. A busca de Neo encontra, mesmo que assustadora, uma revelação, um mundo cru, sem a ilusão fabricada pela Matrix, uma fascinante descoberta que esclarece as questões de Neo.


Em “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” não se encontra esse lugar de estabilidade (mesmo que aterrorizante como encontrado por Neo) e sim uma dinâmica inconstante que a qualquer momento as personagens são lançadas a um novo fluxo incontrolável de acontecimentos com referências completamente novas e distintas.


Diferente de Neo que encontra uma terra devastada, mas a encontra. Em “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” a não chegada, uma jornada onde a carta de navegação foi perdida, mesmo que buscada por Evelyn, está se encontra sempre frente uma repetição minimamente reconhecível, porém com diversos aspectos diferentes e inusitados que freneticamente nunca cessam de se transformar, colocando a experiência de incerteza constante como um elemento extremamente angustiante.


Uma organização, seja qual for, um aterrorizante medo fóbico que organize um modo de estar na vida ou qualquer outro sintoma psíquico, faz parte da experiência neurótica para estarmos no mundo. O sintoma neurótico faz sofrer, mas é também uma maneira de se relacionar com os conflitos psíquicos, foi o arranjo possível para a conquista de uma vida em sociedade buscando alguma realização.


Uma posição mais alinhada com a complexidade de nossos desejos e menos alienada frente as constantes e potentes expectativas pelas quais somos bombardeados cada vez mais, parece ser uma conquista subjetiva imprescindível para que possamos lidar melhor com as frustrações e perdas envolvidas em nossas escolhas.



Ao final do filme, me parece que uma reconciliação com a filha e com a família faz com que Evelyn saia desses múltiplos universos e uma estabilidade seja reconquistada, com alguns ganhos sobre a verdade das relações daquela família. Tocante pela simbologia, afinal reconquistar uma organização frente ao caos e se relacionar depois de todas as cartas na mesa sempre emociona, mas confesso que fiquei com a impressão de um retorno ao passado e de reentrada na Matrix. Já que o frenesi vivido nas realidades paralelas tem seu desfecho em frente a lavanderia, negócio da família de Evelyn, que depois de toda roupa suja lavada, a mãe reconquista o amor da filha e pode voltar a ganhar seu pão e pagar seus impostos.


sugestão de leitura: “As voltas com a Matrix” - www.triep.com.br/post/%C3%A0s-voltas-com-a-matrix




Gustavo Florêncio Fernandes

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP

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