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Cada um no seu retângulo

A cada produto que surge em decorrência do avanço tecnológico, nos espantamos. Foi assim, por exemplo, com o surgimento do cinema, da televisão, da internet, das telas de cristal líquido, do metaverso...



Num misto de horror e fascínio, nos colocamos quase paralisados frente às inovações. O horror nos impede de dizer, nos torna emudecidos e incapazes de simbolizar as experiências. De outro lado, o fascínio também impede que a palavra circule, tamanho investimento feito no objeto. Silenciamo-nos perante suas maravilhas, perdemos a expressividade frente a tanto encantamento. Enquanto o primeiro nos paralisa, o segundo nos coloca em estado de servidão.


Não podendo renunciar aos benefícios e vantagens que a virtualidade nos oferece - sendo ela um operador dos processos subjetivos e elemento constituinte da cultura - como podemos nos apropriar dela sem sermos apropriados por ela?


Dentre questões envolvendo o modo como o sujeito se relaciona com os formatos digitais e o modo como isso interfere em sua constituição subjetiva, estão as preocupações com as intoxicações eletrônicas apresentadas nos períodos iniciais da vida de uma criança.


A intoxicação eletrônica em crianças se apresenta quando, ao invés de brincar, conversar, interagir, questionar, demonstrar sua curiosidade, explorar os espaços nos quais ela se insere, observar seu entorno demonstrando interesse para com ele, colocar seu corpo em interação com tudo isso, ela fica desconectada disso e se volta apenas ao espaço de uma tela na palma na mão. Ainda que um mundo de infinidades se ofereça ali, uma vez aberta uma janela, se abrirá sempre e quase a mesma janela (bolhas algorítimas), numa infinidade também de repetições e tiktoks, dos quais, o sujeito, em constituição e formação psíquica, torna-se também um eco.


Em consequência disso, a criança começa a perder seu interesse pelo outro e pelo mundo à sua volta, deixa de compartilhar experiências, diálogos e brincadeiras, subtrai seu corpo de modos de interação e vai se inserindo cada vez mais num universo que limita suas possibilidades de atribuição de sentido, de fantasia e de elaboração subjetiva das experiências e situações vividas, trazendo prejuízos à criatividade e ao pensamento.


Os efeitos destes modos de relação com celulares, tabletes, ipads, telas, telas e telas, se inscrevem no psiquismo da criança e afetam seu modo de se subjetivar e de se relacionar com o outro, trazendo, em decorrência, quadros sintomatológicos que impactam tanto a criança quanto a sociedade e a cultura da qual ela participa.


São sofrimentos que remetem à depressividade, agressividade, estados intensos de agitação, dificuldades de aprendizagem, transtornos de atenção e concentração, demandas de consumo, autistização... todos, de alguma forma, trazendo uma tentativa de configuração do desamparo ao qual a criança se vê submetida em decorrência de seu isolamento virtual.


Diante desse cenário, precisamos repensar qual o lugar que temos destinado à criança em nossa cultura.



Para o filósofo Giorgio Agambem, a infância é o lugar da experiência, por excelência. E essa experiência, se não for ensinada, transmitida, passada nas trocas humanas, torna-se perda e ausência. Na mesma linha de pensamento, a psicanalista Julieta Jerusalinsky afirma que “a gente precisa de gente para virar gente, pois é na relação com o outro que uma criança se estrutura.”


Nesse cenário em que o predomínio e o excesso de imagem e de virtualidade se impõem, sem a presença efetiva do outro, acompanhamos o apagamento do sujeito e os efeitos nocivos à sua subjetividade desde os períodos iniciais de sua constituição. E se assim tem sido, é hora de trazer os adultos de volta pra sala!


Leila Veratti

Psicanalista, membro efetivo do TRIEP leilacsantos@hotmail.com


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