REFLEXÕES SOBRE UM FIM DE ANÁLISE
- Triep

- há 2 dias
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A leitura de “Análise”, da psicanalista Vera Iaconelli - publicado no ano passado pela editora Zahar - teve um impacto especial sobre mim, porque eu havia finalizado um processo delicado de análise pessoal que durara dez anos. Certamente a “chaminé” estava mais limpa e me permitia respirar melhor no mundo lá fora.

No entanto, quem já atravessou um longo processo de análise sabe que, após o breve entusiasmo de uma vida que parece novamente aberta, irrompe um vazio. Um vazio que não é ausência, mas presença. Que enche porque envolve tudo. É "o vazio que sempre foi esse centro no qual nos fiávamos" (IACONELLI, p. 203).
O Eu parece se dissolver em nada... É terrível! Mas é justamente ali, onde o zero, o vazio, a Falta desembocam, que se abre uma passagem. Um convite a dar o primeiro passo em direção àquilo que ainda não se sabe ser.
Escolher cada coisa de novo...Escolher: eis a liberdade. E a liberdade assusta. Assusta porque é nova. Porque retira os “apoios” conhecidos, já que, muitas vezes, preferimos a segurança de um fracasso que nos é familiar à angústia de um caminho ainda não percorrido. Em meio ao sempre visto, atravessados pelas fantasias que organizam nossa experiência do mundo, somos convocados a escolher novamente. Outra vez e, ao mesmo tempo, de um modo inteiramente novo. O vazio será preenchido pelas escolhas.
Talvez seja essa a diferença entre o Eu de ontem e o sujeito que se anuncia: a possibilidade de escolher, no curso da vida comum, o que deixaremos para trás e o que levaremos na viagem iniciada com mais um primeiro passo. É isso que o processo psicanalítico possibilita: atravessar o sintoma que nos paralisa, assumir a incompletude que nos constitui e reconhecer a Falta não como condenação, mas como condição para criar. Afinal, a castração dói, mas não mata. E a experiência dessa espécie de quase-morte pode devolver à vida um sentido novo, ressignificá-la.

Ressignificar é reinventar. É viver de novo, mas agora como sujeito da própria história, e não como objeto das fantasias que nos aprisionavam. Isso não é pouca coisa. Talvez por isso seja tão difícil de transmitir, não cabendo em disciplinas, módulos ou programas de formação universitária. Não se trata propriamente de adquirir um saber. Trata-se de percorrer um caminho, um percurso singular.
É também por isso que, em Psicanálise, não falamos de cura no sentido médico do termo. A cura, para nós, aproxima-se mais da cura do queijo: um processo que exige tempo, transformação e maturação. E é sempre singular.
Assim, um psicanalista não é autorizado apenas por um diploma. Há uma autorização que não pode vir de fora e que tem a ver com o campo da autoria, do convite à criação feito pela página em branco, vazia. Além disso, como sustentar alguma autoridade diante da alteridade do inconsciente de um analisando sem ter lidado com o próprio inconsciente? Sem ter percorrido, ao menos em parte, os caminhos que agora convida o outro a percorrer?

Samuel Veratti
Psicanalista, membro colaborador do TRIEP
@samuelveratti.psicanalista





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